Dossiê
O que esta primeira rodada encontrou cruzando o Livro de Mórmon com arqueologia, geologia e registros históricos, de fora e de dentro da Igreja. Cada afirmação aponta para uma ficha do mapa, e cada ficha, para as fontes.
Como ler
Toda ficha leva um carimbo. Ele diz que tipo de informação é aquela, não se ela fala a favor ou contra o livro.
A Igreja não tem posição oficial sobre onde os acontecimentos se passaram, além de terem ocorrido nas Américas, e pede que teorias de geografia não sejam ensinadas nas reuniões (ensaio de 2019). Os lugares do livro no mapa são candidatos de modelos, não descobertas.
O que o próprio texto exige de um mapa
- Uma terra do norte e uma terra do sul ligadas por uma faixa estreita, com mar a leste e a oeste; atravessá-la levava um dia e meio para um nefita (Alma 22:32).
- O rio Sidon passa junto a Zaraenla, e suas cabeceiras ficam perto da faixa de deserto que separa a terra de Zaraenla da terra de Néfi, de mar a mar (Alma 22:27–29).
- A terra de Néfi fica ao sul e mais alta: o texto “sobe” para lá e “desce” para Zaraenla (Mosias 7:1–2).
- Na terra do norte havia pouca madeira e ossos de um povo anterior; lá se construiu com cimento (Helamã 3:5–11; Alma 22:30).
- Cumora fica numa terra de muitas águas, rios e fontes (Mórmon 6:4).
- As viagens duram dias e semanas a pé. Foi isso que levou estudiosos como John Sorenson a falar em geografia limitada: algumas centenas de quilômetros, não um continente.
| Mesoamérica (Sorenson e outros) | Heartland (Meldrum, Porter) | |
|---|---|---|
| Faixa estreita | Istmo de Tehuantepec LV-05 | Península do Niágara LV-14 |
| Rio Sidon | Grijalva (Sorenson) ou Usumacinta (Allen, Hauck) LV-07 | Mississippi |
| Zaraenla | Santa Rosa, Chiapas, hoje sob uma represa LV-06 | Montrose, Iowa (D&C 125:3) LV-13 |
| Cidade de Néfi | Kaminaljuyu, Guatemala LV-08 | ao sul, sem sítio definido |
| Cumora | Cerro El Vigía, Tuxtlas LV-11 | Palmyra, Nova York LV-12 |
| Arqueologia | Olmecas (jareditas), maias e zoques pré-clássicos | Adena e Hopewell SA-17 |
| A favor | Escrita, calendário, cidades, fortificações e vulcões no período certo | Liga o monte de Palmyra e falas de Joseph Smith ao texto |
| Contra | Pontos cardeais girados; istmo largo para um dia e meio; nenhum nome confirmado | Sem escrita nem cidades na escala do texto; lagos de água doce no lugar de mares |
Há também modelos na América do Sul e em outros lugares; nenhum tem endosso da Igreja.
A destruição de 34 d.C.
3 Néfi 8–10 conta que, no trigésimo quarto ano, no quarto dia do primeiro mês, veio uma tormenta nunca vista: trovões, terremotos, cidades incendiadas, uma afundada no mar, outra coberta de terra com uma montanha no lugar, estradas quebradas, rochas partidas. Durou cerca de três horas. Depois vieram três dias de escuridão tão densa que não se acendia fogo e se podia sentir o “vapor da escuridão”; houve quem morresse sufocado “pelo vapor da fumaça” (3 Néfi 8:5–23; 10:13–14).
Lido por um geólogo, é o quadro de uma erupção explosiva acompanhada de terremotos (Bart Kowallis, BYU Studies, 1997):
| O texto descreve | O que a geologia conhece |
|---|---|
| Trovões, relâmpagos, tormenta | Raios dentro da nuvem de cinza das erupções explosivas |
| Terra tremendo, rochas fendidas, estradas quebradas | Terremotos de falha ou ligados à subida do magma; liquefação do solo |
| Cidades incendiadas | Fluxos piroclásticos e queda de material quente |
| Cidade coberta de terra, montanha no lugar | Fluxos de cinza, lahars, cones novos: o Paricutín cresceu 336 m em um ano TE-09 |
| Cidade afundada no mar, águas que sobem | Afundamento da costa em grandes terremotos TE-12 e tsunamis TE-11 |
| Três dias de trevas palpáveis, fogo que não acende | Queda de cinza fina e gases sulfurosos |
Os candidatos datados, do mais compatível ao que não bate:
| Evento | Data | Onde | Veredito |
|---|---|---|---|
| Popocatépetl enterra Tetimpa TE-01 | séc. I, 1ª metade; março–abril | Puebla | compatível |
| Lahars do Tacaná nos vales de Izapa TE-02 | 25–72 d.C. | Chiapas–Guatemala | compatível |
| El Chichón TE-03 | ~2000 e ~1900 anos | Norte de Chiapas | possível, data grossa |
| New Madrid TE-13 | c. 0 ± 200 | Vale do Mississippi | só no Heartland, margem larga |
| Núcleos de gelo TE-04 | 10 a.C.–95 d.C. | Global | sem grande erupção tropical; pulso norte em 46 |
| Xitle cobre Cuicuilco TE-05 | 245–315 d.C. | Cidade do México | não bate |
| Samabaj submersa TE-07 | habitada até ~250 | Lago Atitlán | não bate |
| Ilopango TE-06 | 431 ± 2 d.C. | El Salvador | não bate |
Em resumo: há atividade vulcânica datada no séc. I d.C. em pelo menos dois pontos do sul do México, Popocatépetl e Tacaná, e no caso do Popocatépetl até a estação do ano bate. Nenhuma data é exata ao ano, então isso não prova o relato, mas também não o contradiz. Três casos citados com frequência (Ilopango, Xitle e Samabaj) não batem com 34 d.C.
A rota da Arábia
É o trecho do livro com o cruzamento mais forte com dados de fora.
- Firme: Jerusalém tomada em 16 de março de 597 a.C. e Zedequias posto no trono LV-01; bulas de oficiais de Jeremias 38 SA-01; cartas de Laquis SA-03; altares da tribo NHM em Marib, séculos VII–VI a.C. SA-04; fenícios de Necau tentando contornar a África por volta de 600 a.C. SA-05.
- Proposto: vale de Lemuel em Wadi Tayyib al-Ism LV-02; Naom na região de Nihm, onde a rota do incenso vira para leste, como em 1 Néfi 17:1 LV-03; Abundância em Khor Kharfot LV-04; Muleque como Malkiyahu, “filho do rei” SA-02.
Nada disso nomeia Leí. O que pesa é a combinação: um nome tribal da época, no lugar e na direção certos, e uma costa fértil isolada no fim do caminho.
Cronologia cruzada
| Quando | No Livro de Mórmon | No registro externo |
|---|---|---|
| 722/721 a.C. | — | Samaria cai; Sargão II fala em 27.290 deportados TP-01 |
| 597 a.C. | Leí sai no primeiro ano de Zedequias (1 Néfi 1:4) | Crônica Babilônica: Jerusalém tomada em 16 de março; Zedequias no trono LV-01 |
| c. 600 a.C. | Travessia da Arábia e navio em Abundância (1 Néfi 16–18) | Altares NHM em Marib SA-04; fenícios de Necau SA-05; Etemenanki reconstruído SA-06 |
| 587/586 a.C. | Muleque escapa (Helamã 8:21; Ômni 1:15) | Jerusalém destruída; filhos de Zedequias mortos LV-01 |
| c. 400 a.C. | Fim jaredita? (cronologia incerta) | La Venta abandonada; fim olmeca SA-08 |
| 36 e 32 a.C. | Muitos registros guardados (Helamã 3:13–15) | Datas em Conta Longa mais antigas: Chiapa de Corzo e Tres Zapotes SA-10 SA-09 |
| c. 46 a.C. | Migração para o norte; casas de cimento (Helamã 3:3–11) | Teotihuacan começa a crescer SA-15 |
| séc. I d.C. | 34 d.C.: tormenta, terremotos e três dias de trevas (3 Néfi 8) | Popocatépetl TE-01; lahars do Tacaná, 25–72 TE-02; gelo sem grande erupção tropical TE-04 |
| c. 150 d.C. | Paz de 4 Néfi | El Mirador perde a população SA-13; La Mojarra, 143 e 156 SA-11 |
| c. 231 d.C. | Volta a divisão em classes (4 Néfi 1:35–38) | Xitle cobre Cuicuilco, 245–315 TE-05; Samabaj abandonada, c. 250 TE-07 |
| 266 d.C. | — | Grande erupção tropical no gelo (23 Tg de enxofre), origem desconhecida (HolVol) |
| 350 d.C. | Tratado divide as terras (Mórmon 2:28–29) | — |
| 378 d.C. | Guerras de Mórmon | “Entrada” teotihuacana em Tikal SA-16 |
| 385 d.C. | Última batalha em Cumora (Mórmon 6:5) | — |
| 421 d.C. | Morôni encerra o registro (Morôni 10:1) | Ilopango explode dez anos depois, em 431 TE-06 |
Folclore: antigo ou colonial?
| Tradição | Primeiro registro | Quem registrou | Leitura crítica |
|---|---|---|---|
| Quetzalcóatl, deus branco que voltaria FO-01 | 1552 | Gómara, cronista espanhol que nunca foi à América | Sem prova antes da conquista (Townsend) |
| Título de Totonicapán: k’iche’ descendem de Israel FO-05 | 1554 | Nobres k’iche’ catequizados | Israel provavelmente aprendido com os frades |
| Popol Vuh: dilúvio e migração pelo mar FO-04 | c. 1554–1558 | Autores k’iche’; cópia de Ximénez, c. 1701 | Mito maia com camadas coloniais |
| Viracocha branco e barbado FO-07 | 1551–1553 | Betanzos, Cieza de León | Brancura ausente nas versões nativas |
| Xelhua e a pirâmide de Cholula FO-02 | c. 1566–1581 | Frades Pedro de los Ríos e Diego Durán | Paralelo bíblico buscado pelos frades |
| Ixtlilxóchitl: torre e confusão de línguas FO-03 | c. 1600–1640 | Cronista mestiço de Texcoco | Mistura declarada com a Bíblia |
| Montezinos: Rúben e Levi nos Andes TP-12 | 1644 | Viajante cristão-novo | Testemunho único |
| Índios como hebreus FO-12 | 1566–1607 | Frades Landa, Durán e García | Origem colonial da própria ideia |
| Votan, viajante do Velho Mundo FO-06 | 1702 | Bispo Núñez de la Vega; Ordóñez y Aguiar | Viagens acrescentadas no séc. XVIII |
| Karen: o livro de ouro devolvido pelo irmão branco FO-11 | 1828 | Missão batista de Judson | Registrada por quem queria ver a Bíblia nela |
| Tribos no Polo Norte FO-14 | anos 1830 | W. W. Phelps e outros SUD | Nunca foi ensino oficial |
| Inscrição fenícia da Paraíba AL-07 | 1872 | Carta anônima ao Museu Nacional | Fraude; a pedra nunca existiu |
| Fenícios na Pedra da Gávea FO-13 | anos 1930 | Bernardo da Silva Ramos | Erosão lida como escrita |
| Pahana e a tábua hopi FO-08 | 1963 | Frank Waters | Autor não hopi, versões variam |
O padrão é claro: quase todo paralelo bíblico do folclore americano foi registrado depois de 1550, por frades ou por pessoas educadas por eles. Isso não prova que tudo foi inventado, mas impede usar essas histórias como memória independente. O que é antigo de verdade, como a serpente emplumada, as árvores do mundo e os calendários, não tem ligação demonstrada com o texto.
As tribos perdidas pelo mundo
2 Reis 17:6 leva Israel para Hala, Habor e as cidades dos medos, em 722 a.C. TP-01. No séc. I, Josefo escreve que as dez tribos continuavam além do Eufrates, “uma multidão imensa” (Antiguidades 11.133). O apócrifo 2 Esdras 13:39–47 diz que elas atravessaram o Eufrates e andaram um ano e meio até uma terra chamada Arzaré (texto). O Livro de Mórmon diz que Cristo iria se mostrar a elas (3 Néfi 17:4) e que elas têm registros próprios (2 Néfi 29:12–13); Doutrina e Convênios fala em reunir as dez tribos “da terra do norte” (D&C 110:11).
O próprio Néfi já dizia que a maior parte das tribos estava “dispersa aqui e ali, pelas ilhas do mar”, e que ninguém sabia onde (1 Néfi 22:3–4). A volta pelo mundo achou estas tradições:
| Comunidade | Tradição | O que se sabe |
|---|---|---|
| Perto do lugar da deportação | ||
| Samaritanos TP-05 | Efraim e Manassés; sacerdotes levitas | Grupo contínuo; linhagens paternas israelitas antigas |
| Judeus do Curdistão TP-13 | Exilados pela Assíria | Falavam aramaico; estudiosos acham a tradição plausível |
| Judeus da Geórgia TP-14 | Refugiados de Nabucodonosor | Crônica do séc. XI; lápides dos séc. III–V |
| Judeus da Montanha TP-15 | Tribos levadas por Salmaneser | Judeus persas que chegaram ao Cáucaso na era sassânida |
| Judeus do Iêmen TP-21 | Chegada no tempo de Jeremias | Prova só a partir de c. 25 a.C. |
| Ásia | ||
| Judeus de Bukhara TP-16 | Naftali e Issacar | Diáspora persa depois de Ciro |
| Pashtuns TP-10 | Bani Israel | Genealogia descartada; genética sem resultado |
| Caxemira TP-17 | Tribos que Jesus teria visitado | Tese Ahmadiyya de 1899 |
| Bene Israel TP-11 | Naufrágio em Konkan | Ancestralidade judaica de 650–1050 anos atrás |
| Bnei Menashe TP-09 | Manassés | Reconhecidos em 2005; DNA sem sinal claro |
| Bene Ephraim TP-24 | Efraim | Desde os anos 1980; sem evidência |
| Qiang TP-19 | Descendentes de Jacó | Tese de missionário, 1937 |
| Judeus de Kaifeng TP-20 | Isolados por séculos | Origem persa, dinastia Song |
| Japão TP-18 | As dez tribos | Teoria marginal, sem apoio genético |
| Karen FO-11 | Livro de ouro devolvido pelo irmão branco | Registrada por missionários em 1828 |
| África | ||
| Beta Israel TP-07 | Tribo de Dã | Reconhecidos em 1973; geneticamente próximos dos etíopes |
| Lemba TP-08 | Origem em Sena | Sinal genético em 2000, não sustentado em 2013 |
| Igbo TP-22 | Eri, filho de Gade | Sem estudo que sustente |
| Casa de Israel, Gana TP-23 | Uma tribo perdida | Nasceu de uma visão em 1976 |
| Europa, Américas e Pacífico | ||
| Israelismo britânico TP-25 | Os britânicos são Israel | Sem base histórica nem genética |
| Frades espanhóis FO-12 | Os índios são hebreus | Teoria colonial de 1566–1607 |
| Montezinos TP-12 | Rúben e Levi nos Andes | Testemunho único |
| Hagote FO-10 | Polinésios vindos do povo de Hagote | Houve contato real com a América do Sul, mas c. 1200 |
| Na Igreja | ||
| Bênção patriarcal TP-26 | Efraim, Manassés e outras tribos | Declaração religiosa, por sangue ou adoção |
| Polo Norte FO-14 | Tribos escondidas no norte | Folclore do séc. XIX, nunca ensino oficial |
O padrão se repete no mundo todo. Quem ficou perto do lugar da deportação e guardou o aramaico ou o Pentateuco (samaritanos, judeus do Curdistão) tem a ligação mais plausível com o reino do norte. Quanto mais longe, mais a tradição é recente, nasce de missionários ou de uma visão, e a genética não acompanha. A lenda do rio Sambation TP-06 foi a mais influente sobre um esconderijo das tribos; a leitura da Igreja hoje é outra: elas estão misturadas entre os povos e são reconhecidas pela linhagem declarada na bênção patriarcal, não pelo DNA.
O que não bate
- DNA: a ancestralidade dos povos nativos é asiática, e não há sinal pré-colombiano do Oriente Médio AL-01. O ensaio da Igreja reconhece isso e argumenta que grupos pequenos podem não deixar rastro.
- Animais: cavalos e elefantes estavam extintos na América havia milênios AL-02.
- Datas que não fecham com 34 d.C.: Xitle TE-05, Ilopango TE-06, Samabaj TE-07.
- Objetos forjados que ainda circulam: pedras de Newark AL-03, Bat Creek AL-04, Los Lunas AL-05, placas de Kinderhook AL-06 e, no Brasil, a inscrição fenícia da Paraíba AL-07.
- Nenhuma inscrição do Novo Mundo traz um nome do livro, e nenhum lugar americano foi confirmado.
Próximas frentes
- Procurar a assinatura do Popocatépetl do séc. I no gelo da Groenlândia, como foi feito para o Ilopango.
- Refinar as datas dos lahars do Tacaná e ver o que aconteceu em Izapa nessa época.
- Idade calibrada das erupções de El Chichón de ~2000 e ~1900 anos e o alcance da cinza.
- Tsunamis de cerca de 2 mil anos na costa do Pacífico mexicano: hoje é lacuna.
- Data e causa da inundação de Samabaj.
- Escrita istmiana (La Mojarra, Estatueta de Tuxtla) e cronologia olmeca × jaredita.
- Genética publicada dos judeus do Curdistão e da Geórgia, para medir a força dessas tradições.
- Inscrições judaicas antigas no sul da Arábia, na rota de Leí, para testar a tradição de Sanaa.
Fontes
Artigos revisados por pares, bases de dados, relatórios de escavação e documentos antigos têm o peso maior. Material apologético SUD (FAIR, Scripture Central, Interpreter) entra identificado, e sites de divulgação só onde não achei coisa melhor. A tabela de erupções saiu do arquivo do HolVol (PANGAEA), lido direto.